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ATENÇÃO FRAGMENTADA

do tempo da televisão a preto e branco para a televisão a cores

 

Veja também como "apanhar o comboio da aprendizagem... sem deixar ninguém para trás"

 

Depois de uns anos sem dar aulas, avisaram-me antes do regresso à escola: “Olha que vais estranhar! As crianças estão diferentes, muito irrequietas e desatentas.” E, como diz o ditado “Quem te avisa teu amigo é”, pude constatar na prática que quem me avisou, além de ser meu amigo, tinha razão.

Quando agarrei num 1.º ano, tive a sensação de que as crianças tinham sido acometidas por um défice de atenção coletivo. Eu falar bem falava, mas elas pouco pareciam ouvir-me. Tentei aquele truque que anteriormente resultava: ficar parada, calada, de braços cruzadas, à frente da turma até que os alunos reparassem e se acalmassem para me ouvirem.

Bem, eles reparar que eu estava quieta e calada até que reparavam, mas em vez de surtir o efeito pretendido, parecia dar azo ao efeito precisamente contrário, ou seja “Já que está quieta e calada, deixa-me lá fazer o que me apetece!”… Não é preciso ser muito imaginativo para calcular o caos que, em pouco tempo, reinava na sala de aula.

Também experimentei outra tática que costumava dar efeito: falar muito pausada e calmamente para, por contágio, transmitir essa tranquilidade aos alunos. Esta tática revelou-se em parte eficaz porque os alunos realmente acalmavam, mas por outro lado ineficaz porque, apesar de calados, ficavam como que alheados sem darem atenção ao que eu, mais uma vez inutilmente, dizia.

Se o silêncio e a calma não resultavam, passei para uma solução diametralmente oposta e, agora sim, meia dúzia de gritos bem dados pareciam voltar a instaurar a ordem no caos. Cinco minutos de silêncio e atenção eram sempre bem-vindos, o único problema é que a ordem era de curta duração e isso de andar constantemente a ralhar com os miúdos, além de não ser o tipo de relação que pretendo estabelecer, acaba, de resto, por deixar de fazer efeito.

Andava eu a matutar numa solução para o problema, quando uma pista pareceu surgir espontaneamente. Uma tarde, quando as crianças estavam particularmente agitadas, chamei uma das alunas mais irrequietas para vir gerir a aula comigo. Se a minha intenção inicial era apenas que ela se acalmasse, esse objetivo foi largamente ultrapassado quando constatei que a própria turma tinha ficado, como por encanto, muito mais atenta. Parecia que a interação estabelecida e a diferença de ritmo imprimida tinha finalmente captado a atenção dos alunos.

À noite, estava eu a pensar nesta situação quando o zapping me levou para a RTP Memória, onde estava a passar um programa de entretenimento antigo, no qual o locutor falava em grande plano para o ecrã e, depois, entrevistava calmamente o seu convidado, ora falando um ora falando outro, sem interrupções nem distrações. Zás, e o zapping transportou-me para um programa da atualidade, com o apresentador a falar a grande velocidade, com os convidados todos a interromperem, as notas de rodapé constantemente a passar e imagens a surgir a todo o momento para ilustrarem os assuntos abordados.

E foi aí que comecei a pensar: andamos nós a querer dar aulas como no tempo da televisão a preto e branco quando os miúdos agora veem é televisão a cores! Ou seja, pretendemos que as crianças nos oiçam, quietas e caladas, por um período de tempo indeterminado, quando elas estão habituadas a tempos de concentração intermitente, com inúmeros acontecimentos a decorrer em simultâneo, contando com o fator novidade para fazer “religar” a atenção.

Tudo isto para dizer que os professores, em vez de suspirarem por um tempo que já não existe e por uns alunos que já não são reais, têm de parar para refletir, têm de se colocar em causa e de pensar naquilo que podem fazer de diferente para alterar a situação. Pois então foi mesmo isso que fiz: parar para pensar. E o que pensei foi o seguinte: se as crianças têm a atenção fragmentada, que tal experimentar dar aulas também elas fragmentadas para ver se consigo captar a atenção dos alunos?

Foi na sequência desta interrogação que resolvi adotar assim como que uma espécie de formato “talk show” na sala de aula, convidando os alunos a gerirem as atividades em parceria comigo, sendo que essas atividades eram mais curtas e mudavam frequentemente, enquanto recorria a didáticas diferentes para abordar os mesmos conteúdos.

Parecia que estava no caminho certo. As aulas passaram a ser mais dinâmicas, ativas e diversificadas. Como consequência, os alunos acalmaram, concentraram-se e adaptaram-se a um modelo que estava de acordo com o seu tipo de atenção habitual. E se esta constatação é válida para todos os alunos, já que a maioria das crianças atualmente tem uma atenção fragmentada, ainda é mais verdadeira para os alunos que têm défice de atenção diagnosticado ou para aqueles que, mesmo sem diagnóstico, revelam maiores dificuldades em focar e em manter a atenção na realização de uma tarefa.

Mas é claro que nunca nos damos por satisfeitos − queremos sempre mais. O próximo desafio consistia em alterar o tipo de atenção dos alunos, tornando-a gradualmente menos fragmentada e mais consistente. Trata-se de um longo caminho, todos os dias percorrido, com suor mas também com alegria, que passa por envolver os alunos no seu percurso de aprendizagem, quer atribuindo-lhes responsabilidades na gestão da sala de aula, quer envolvendo-os no seu próprio processo de aprendizagem, realizando atividades que vão de encontro aos seus verdadeiros interesses.

 

Elsa Barros

Professora